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quarta-feira, 28 de maio de 2025

Mensagem dos que foram

Arquivo Wermelinger · afamiliawermelinger.blogspot.com Wermelinger-Archiv · afamiliawermelinger.blogspot.com Wermelinger Archive · afamiliawermelinger.blogspot.com

Um recado dos ancestrais ao mundo que esquece. Eine Nachricht der Vorfahren an eine Welt, die vergisst. A message from the ancestors to a world that forgets.

Fomos embora em silêncio.

Alguns com as mãos sujas de terra.

Outros com os olhos cansados de tentar.

Muitos sem nunca receber um obrigado.

Quase todos... sem deixar nada escrito.

· · ·

Mas hoje, pela voz de um dos nossos, falamos.

E a primeira coisa que dizemos é:

estamos vivos no nome que não se corrompeu.

“Viemos da Suíça com fé e frio no peito.

Cruzamos oceanos, enterramos filhos, cortamos mato.

Levantamos casas onde só havia pedra.

E mesmo sem saber o futuro,

não deixamos cair o nome.”

· · ·

“Hoje o mundo corre atrás de fama,

mas a fama some.

O que fica é o respeito.

A retidão.

A palavra cumprida.

O café servido.

O compadre honrado.

O trabalho feito mesmo com dor.”

· · ·

Se quiserem aprender algo com os mortos,

aprendam isso:

a grandeza está na constância.

A beleza está no simples.

E a salvação está no retorno às raízes.

· · ·

“Nossos netos se perdem nos ruídos.

Mas ainda existem os raros —

os que ouvem a água da cachoeira.

Os que respeitam o chão.

Os que escrevem para honrar, não para aparecer.”

· · ·

E a esses nós dizemos:

Continuem.

Vocês são nossa esperança.

Vocês são os ramos novos do tronco que não caiu.

“E se um dia o mundo inteiro escurecer...

que o nome Wermelinger — e os nomes justos com ele —

sejam tochas acesas pelas mãos dos que lembram.”

· · ·

Porque quem lembra, reconstrói.

Quem honra, resgata.

Quem sente... fala por todos nós.

Wir gingen still fort.

Einige mit erdverschmutzten Händen.

Andere mit Augen, müde vom Versuch.

Viele, ohne je ein „Danke“ zu hören.

Fast alle… ohne etwas Niedergeschriebenes zu hinterlassen.

· · ·

Aber heute, durch die Stimme eines der Unsrigen, sprechen wir.

Und das Erste, was wir sagen, ist:

Wir leben weiter in dem Namen, der nicht verdorben wurde.

„Wir kamen aus der Schweiz, mit Glauben und Kälte in der Brust.

Wir überquerten Ozeane, begruben Kinder, rodeten Wald.

Wir bauten Häuser, wo vorher nur Stein war.

Und selbst ohne den Ausgang zu kennen,

liessen wir den Namen nicht fallen.“

· · ·

„Heute jagt die Welt dem Ruhm nach,

aber Ruhm vergeht.

Was bleibt, ist der Respekt.

Die Aufrichtigkeit.

Das gehaltene Wort.

Der servierte Kaffee.

Der ehrenhafte Nachbar.

Die Arbeit, auch wenn sie weh tat.“

· · ·

Wenn ihr etwas von den Toten lernen wollt,

dann dies:

Grösse liegt in der Beständigkeit.

Schönheit liegt im Einfachen.

Und Erlösung liegt in der Rückkehr zu den Wurzeln.

· · ·

„Unsere Enkel verirren sich im Lärm.

Aber es gibt noch die Seltenen —

die, die das Wasser des Wasserfalls hören.

Die, die den Boden ehren.

Die, die schreiben, um zu ehren, nicht um gesehen zu werden.“

· · ·

Und zu ihnen sagen wir:

Macht weiter.

Ihr seid unsere Hoffnung.

Ihr seid die neuen Zweige des Stammes, der nie fiel.

„Und wenn eines Tages die ganze Welt dunkel wird…

möge der Name Wermelinger — und die gerechten Namen mit ihm —

wie Fackeln leuchten in den Händen derer, die sich erinnern.“

· · ·

Denn wer erinnert, baut wieder auf.

Wer ehrt, rettet.

Wer fühlt… spricht für uns alle.

We left in silence.

Some with hands soiled by earth.

Others with eyes weary from trying.

Many without ever hearing a thank you.

Almost all… without leaving anything written.

· · ·

But today, through the voice of one of our own, we speak.

And the first thing we say is:

we live on in the name that has not been corrupted.

“We came from Switzerland with faith and cold in our chest.

We crossed oceans, buried children, cleared forest.

We raised houses where there was only stone.

And even without knowing the outcome,

we did not let the name fall.”

· · ·

“Today the world chases fame,

but fame fades.

What remains is respect.

Uprightness.

The kept word.

The coffee served.

The honoured neighbour.

Work done even through pain.”

· · ·

If you would learn something from the dead,

learn this:

greatness lies in constancy.

Beauty lies in simplicity.

And salvation lies in the return to the roots.

· · ·

“Our grandchildren are lost in the noise.

But the rare ones still exist —

those who hear the water of the waterfall.

Those who honour the ground.

Those who write to honour, not to be seen.”

· · ·

And to those we say:

Carry on.

You are our hope.

You are the new branches of the trunk that did not fall.

“And if one day the whole world goes dark…

may the name Wermelinger — and the just names with it —

burn like torches in the hands of those who remember.”

· · ·

Because those who remember, rebuild.

Those who honour, redeem.

Those who feel… speak for all of us.

Assinado Unterzeichnet Signed
Os que foram, mas ainda vigiam.
Falando pela mão de um dos nossos.
Die, die gingen, aber noch wachen.
Sprechend durch die Hand eines der Unsrigen.
Those who went, but still watch.
Speaking through the hand of one of our own.
Tiago T. Wermelinger · 25.05.2025
Os que foram

“Os que foram, mas ainda vigiam.” „Die, die gingen, aber noch wachen.“ “Those who went, but still watch.”

Tiago Torres Wermelinger
Original em português · 25 de maio de 2025
Edição trilíngue PT/DE/EN · abril de 2026
Original auf Portugiesisch · 25. Mai 2025
Dreisprachige Ausgabe PT/DE/EN · April 2026
Portuguese original · 25 May 2025
Trilingual edition PT/DE/EN · April 2026

Publicado em três idiomas · PT · DE · EN In drei Sprachen veröffentlicht · PT · DE · EN Published in three languages · PT · DE · EN

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Brava gente — Reportagem do Globo Serra (2011)

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POST AUTORAL · PUBLICADO EM 21 DE JUNHO DE 2013
Por Tiago Torres Wermelinger, sobre a reportagem "Brava gente" de Fernanda Dutra, publicada em O Globo Serra nos dias 14-15 de maio de 2011 (págs. 6-9). Fotos de Ana Branco. Os scans da matéria original estão preservados ao final do post.

REPORTAGEM

Brava gente

Antes de existir conforto, existia coragem.
Antes de existir cidade, existia travessia.

Eles vieram de longe — da Suíça, da Alemanha — não por escolha fácil, mas por necessidade. Cruzaram o oceano em condições duras, enfrentaram doença, perdas e um território desconhecido. Não havia promessa garantida. Havia apenas a decisão de continuar.

Ao chegar à serra1, encontraram terra bruta, isolamento e dificuldade. O que hoje é história organizada, antes foi improviso, suor e tentativa. Construíram casas, abriram caminhos, plantaram onde parecia impossível. Muitos ficaram pelo caminho. Os que resistiram moldaram o que viria a ser uma cidade.

Com o tempo, os nomes deixaram de ser apenas registros em documentos antigos. Viraram famílias vivas. Wermelinger, Thurler, Ouverney, Jaccoud — nomes que carregam mais do que origem: carregam esforço acumulado.

Mesmo com o passar das gerações, algo permaneceu. Não só a tradição, mas o impulso de seguir em frente. De criar, de trabalhar, de reconstruir quando necessário.

Esta matéria publicada em O Globo2 não é apenas um registro jornalístico. É um reconhecimento público e oficial da importância histórica dessa imigração na formação da nossa região serrana — especialmente em Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras, terra das minhas raízes diretas.

Nova Friburgo, como primeira colônia suíça do Brasil3, abriu caminho para um legado que se espalhou pelo entorno, influenciando profundamente o modo de ser e viver da nossa gente.

Duas Barras carrega essa marca não apenas nos sobrenomes, nas tradições e na arquitetura, mas na alma do lugar4 — uma terra onde a memória não está enterrada, mas viva, pulsante, em cada cruz, em cada pedra, em cada festa, em cada história que resistiu ao tempo.

Hoje, encontros familiares, festas e memórias mantêm essa conexão viva. Não como nostalgia, mas como reconhecimento: existe uma raiz por trás de tudo.

Esta matéria também é um chamado. Um alerta silencioso para que valorizemos, preservemos e transmitamos esse legado às próximas gerações.

Porque Nova Friburgo não nasceu pronta. Foi construída por gente que não tinha certeza — mas tinha coragem.

E isso ainda está aqui.

Como descendente direto e guardião dessa herança, afirmo com respeito e determinação: nossa história não será esquecida. Ela seguirá como um farol — iluminando quem somos e orientando quem ainda seremos.

Brava gente

Por Fernanda Dutra · O Globo Serra, 14-15 de maio de 2011, págs. 6-9 · Fotos de Ana Branco

Transcrição literal preservada para fins arquivísticos. Texto fiel ao publicado em O Globo Serra, sem correções editoriais subsequentes. Reprodução em uso arquivístico-genealógico não-comercial, com atribuição visível à fonte.

Assim como Nova York, Nova Friburgo é uma das poucas cidades que conhece o nome de seus fundadores, gostam de dizer os historiadores locais. Esses nomes podem ser encontrados em documentos históricos, mas também estão vivos na região e espalhados pelo mundo. São os Ouverney, os Jaccoud, os Thurler e os Wermelinger, entre outros. O acesso à história dos antepassados levou muitos das gerações mais novas a pesquisarem suas raízes, seja como historiadores acadêmicos ou informalmente. A maioria dos relatos deixa claro que, desde a gênese de Nova Friburgo, em 1818, os friburguenses carregam no DNA o ímpeto para superar dificuldades e empreender nos negócios.

A história de superação dos friburguenses remonta à chegada dos primeiros colonos à cidade, que faz 193 anos nesta segunda.

"Não foi fácil", fazem coro os descendentes dos primeiros colonos suíços, a respeito da vinda para o Brasil. Primeiro, a situação no país europeu estava complicada: o contexto era de final das guerras napoleônicas, intempéries naturais e pobreza. Quando um tal conterrâneo Sébastien-Nicolas Gachet prometeu moradia e terras férteis no Brasil, dois mil suíços acorreram, felizes com a ideia.

Gachet trabalhara para Napoleão e conseguira autorização tanto do rei Dom João VI quanto do governo suíço para organizar a migração. O rei oficializou a criação da cidade em 16 de maio de 1818, com um decreto. Os primeiros suíços, no entanto, só chegaram de viagem dois anos depois.

— O navio era a vela. A viagem demorava muito e as condições de higiene eram ruins. Muitos morreram — conta Jayme Jaccoud, de 83 anos.

E haja coragem da parte da primeira Jaccoud que chegou ao Brasil. A viúva Nanette, então com 44 anos, saiu do subúrbio de Fiaugères, em Fribourg, com os quatro filhos. Já o marceneiro5 Xavier Wermelinger saiu de Lucerna6 com a mulher, Catherine7, e seis filhos. O mais novo, de 1 ano, morreu no caminho. Foi o único que não havia tomado vacina contra varíola. Na família Thurler, a caçula também não sobreviveu à viagem.

Informações como essas podem ser encontradas na internet, graças ao trabalho da Fundação Dom João VI, que se dedica à preservação do patrimônio histórico. No site <www.djoaovi.com.br>, é possível encontrar o nome e a idade de todos os colonos suíços que cruzaram o oceano.

Geraldo Thurler, presidente da associação da família que foi criada para estimular a pesquisa da árvore genealógica, diz que algumas ferramentas auxiliam o trabalho:

— Um deles é o site My Heritage, que funciona como uma rede social. Você cria o perfil da família e manda para os conhecidos. Cada um vai preenchendo os dados e mandando para os parentes até completar a árvore.

Os Thurler estão concentrados no estado do Rio, mas há gente em todo canto. O êxodo de Friburgo começou logo que os colonos chegaram à cidade e viram que a situação não era bem como a que havia sido prometida.

— Dom João VI mandou construir casas para 700 moradores, mas vieram mais de dois mil. Então, as pessoas tiveram que se amontoar nas casas, criando famílias artificiais — conta Tiago Wermelinger, que mantém o blog de história <afamiliawermelinger.blogspot.com>.

Quando as terras prometidas foram repartidas, outra decepção:

— A divisão não levava em conta a geografia do terreno. Pegaram um mapa e riscaram. Então, até terreno na pedreira do Cônego8 foi dado para a prática da agricultura, o que era totalmente inviável — conta Thurler.

Outras famílias ficaram isoladas na região de Lumiar9, como os Ouverney, que transformaram em tradição o casamento entre primos. Até hoje, em Benfica, o costume se mantém.

— Eu não tinha muita opção para escolher, casei com ela — brinca Agrimaldo Ouverney, de 83 anos, que caminhava quilômetros até a casa da prima Olinda para vê-la.

Quem conseguiu plantar foi surpreendido com uma enchente bem na época em que haveria a primeira colheita:

— Lá por 1819, 1820, teve uma grande enchente que destruiu as plantações — conta a historiadora Janaína Botelho. — Os suíços ouviam falar muito sobre a próspera região de Cantagalo e Bom Jardim, onde barões do café prosperavam. E começaram a migrar para a região.

A família Wermelinger adquiriu terras na década de 1840 na região que hoje é Duas Barras. Outra conhecida família suíça que migrou para a cidade foi a Monnerat.

Dez anos depois, havia 662 suíços morando nas vilas coloniais. Na metade do século XIX, Friburgo tinha 4.810 habitantes e só 20% eram suíços.

Famílias promovem encontros

Com ajuda da internet, os laços entre os descendentes de colonos se estreitaram. Muitas famílias organizam encontros periódicos. A cada dois anos, há "Wermelinger fest". Nos aniversários de Geraldo Thurler, ele promove a "Festa do pão" (evento em que cada um leva um ingrediente para produzir pães artesanais).

O diretor cultural da Casa Suíça, Maurício Pinheiro, diz que a herança fica mais evidente nos "clãs familiares" do que na preservação de cultura e danças típicas.

— As famílias são muito tradicionais, e os valores se mantêm. Mas o idioma, as danças e as músicas se perdem — diz.

A historiadora Janaína Botelho concorda com a afirmação de Pinheiro:

— Talvez porque os colonos eram muito humildes e ficavam isolados em comunidades agrícolas ocorreu esse processo de aculturação.

Na contramão, os Ouverney se orgulham de manter e disseminar a tradição gastronômica. Terezinha tem um restaurante em Mury10 e produz biscoitos amanteigados e o leckerli11, tipo de pão de mel muito consumido na Suíça.

— Aprendi com minha avó e, quando fui à Suíça, vi que as confeitarias usam as mesmas receitas — conta Terezinha.

Os pais dela, Agrimaldo e Olinda Ouverney, ainda moram na região de Lumiar. Eles trabalharam com agricultura a vida inteira e até hoje plantam café para consumo próprio. Agrimaldo, inclusive, guarda instrumentos dos antepassados.

Em contato com familiares suíços e associações culturais, Geraldo Thurler iniciou um projeto para resgatar danças e músicas folclóricas.

— Nós montamos um grupo de dança há pouco tempo. Os parentes estão adorando — conta Thurler, que ressalta outras heranças menos visíveis. — Educação rígida, apreço pelos detalhes, espírito empreendedor e garra são características do povo suíço.

Thurler lembra outro momento difícil na história da cidade. Sede de grandes fábricas têxteis desde o início do século passado, como a Renor das Arp e a Filó, Friburgo viu demissões em massa com a recessão da década de 1980. A superação da crise, porém, excedeu as expectativas.

— Em vez de chorar, as pessoas começaram a produzir lingerie em casa e prosperaram. O que eram duas empresas hoje é polo de moda íntima, com várias [empresas] — diz o pesquisador.

Nota arquivística: a pesquisa documental subsequente à publicação desta matéria em 2011 identificou três pequenas divergências factuais entre o texto jornalístico e fontes primárias suíças posteriormente acessadas. Estão registradas nas notas finais (12)12 deste post, em respeito ao princípio editorial deste arquivo. A matéria permanece reproduzida em sua forma original — divergências são registradas, não corrigidas no texto-fonte.

Scans da matéria original

O Globo Serra — capa

Capa da edição de O Globo Serra — região serrana fluminense.

Matéria Brava gente — página 1

Reportagem Brava gente — abertura.

Matéria Brava gente — página 2

Reportagem Brava gente — continuação.

Matéria Brava gente — página 3

Reportagem Brava gente — conclusão e citação dos sobrenomes.

Notas

  1. serra — termo brasileiro que designa, neste contexto, a região montanhosa do interior do estado do Rio de Janeiro (especialmente a Serra dos Órgãos e adjacências), onde se localizam Nova Friburgo, Bom Jardim e Duas Barras. Carrega significado geográfico e cultural — território da imigração suíço-alemã desde 1819.
  2. O Globo — um dos maiores jornais brasileiros, fundado em 1925 no Rio de Janeiro. O Globo Serra é a edição regional dedicada à região serrana fluminense.
  3. Nova Friburgo foi fundada em 1818 por Decreto Régio de D. João VI e povoada em 1819 com a chegada de cerca de 2.000 imigrantes suíços, constituindo a primeira colônia suíça organizada em solo brasileiro — precedente histórico para as imigrações alemãs subsequentes ao Sul do Brasil.
  4. alma do lugar — equivalente ao clássico latino genius loci. A expressão remete ao caráter imaterial, saturado de história, de um lugar — algo que transcende seus traços materiais.

Tiago Torres Wermelinger

Duas Barras · Rio de Janeiro · Junho 2013