quarta-feira, 4 de março de 2009
150 Anos Depois
Reencontro da Família Wermelinger
Vista da cidade de Duas Barras
Notícia Fluminense – 12/09/1967
Família das mais tradicionais, dedicada ao progresso e desenvolvimento do parque agro-pastoril das regiões de Duas Barras, Cantagalo, Sumidouro e adjacências, o nome Wermelinger tornou-se conhecido e respeitado, com vários dos seus membros formados em engenharia, advocacia, economia e na carreira militar.
É originária da Suíça, dos distritos de Sursee, Willisau e Lucerna, sendo conhecida desde o século XV. Assim, temos Hans, que foi o primeiro magistrado em 1525. Hans também foi chefe de cantão em Ruswil, construindo, em 1575, a capela de Buholz. Gaspar foi canteiro de Ruswil, conquistando três brasões em 1656. Esses dados encontram-se no "Dictionnaire Historique et Biographique de la Suisse".
O primeiro Wermelinger a chegar aqui foi Xavier Wermelinger, casado com Catharina Egglin, com mais cinco filhos, em 1819, sendo uma das famílias fundadoras de Nova Friburgo, antiga Morro Queimado, sendo destinado, por sorteio, a morar na quadra nº 61. Naquela época, diversas outras famílias também vieram, como Erthal — cujo primeiro membro casou-se com Catharina, filha de Xavier —, além de Monnerat, Lutterbach, Eggendorn, Stutz, etc.
Desde 1819, os Wermelinger não mantinham contato com os da Suíça. Entretanto, um membro da família, Walter Wermelinger da Costa, residente na Rua Dr. Celestino, 172, apto. 404 – Niterói, que é advogado, pesquisando na Embaixada da Suíça, conseguiu estabelecer o liame, mantendo desde 1962 correspondência com um Wermelinger residente em Lucerna.
Finalmente, a 31 de julho último, foi realizado o contato pessoal, uma vez que chegou ao Aeroporto do Galeão o Sr. Walter Wermelinger, residente em Lucerna, com atividades profissionais na cidade de Zurique, Suíça.
Comemorando o auspicioso acontecimento, após quase 150 anos de separação, os Wermelinger residentes em Duas Barras deram uma pequena festa em homenagem à data, que desde então ficou gravada em letras de forma no coração de toda a família.
Como intérprete da língua alemã, atuou o acadêmico de medicina Christian Gaudere, residente em Niterói.
terça-feira, 3 de março de 2009
Ao meu querido amigo Walter de Ultramar
Lucerna · Vésperas do Natal · 18 de dezembro de 1962 Luzern · Vor Weihnachten · 18. Dezember 1962 Lucerne · In the days before Christmas · 18 December 1962
Notícias da Suíça para a família no Brasil Nachrichten aus der Schweiz für die Familie in Brasilien News from Switzerland for the family in Brazil
Carta conservada pelo Arquivo Wermelinger. A versão portuguesa é a tradução feita em 1962 para o destinatário no Brasil, o advogado Walter Wermelinger da Costa. Há também uma versão francesa conservada. As versões alemã e inglesa são traduções do Arquivo Wermelinger, maio de 2026. A língua original da carta — alemão ou francês — está em verificação. Brief im Bestand des Wermelinger-Archivs. Die portugiesische Fassung ist die 1962 für den Empfänger in Brasilien, den Anwalt Walter Wermelinger da Costa, angefertigte Übersetzung. Eine französische Fassung ist ebenfalls erhalten. Die deutsche und die englische Fassung sind Übersetzungen des Wermelinger-Archivs, Mai 2026. Die Originalsprache des Briefes — Deutsch oder Französisch — wird noch überprüft. Letter held by the Wermelinger Archive. The Portuguese version is the translation made in 1962 for the recipient in Brazil, the lawyer Walter Wermelinger da Costa. A French version is also preserved. The German and English versions are translations by the Wermelinger Archive, May 2026. The letter’s original language — German or French — is under verification.
Os meus profundos agradecimentos pela sua carta datada de outubro passado. Alegrei-me muito em receber notícias suas. Tendo a intenção de lhe enviar uma lista completa do custo de vida na Suíça, a minha resposta demorou. Soube agora que poderei obtê-la na Câmara dos Deputados, em Berna[1], mas isso levará ainda algum tempo.
Apesar disso, escrevo-lhe para desejar um Feliz Natal e um Bom Ano Novo, a si e a todos os seus parentes.
Acredito que uma viagem para tão longe seja quase impossível dada a sua situação, sobretudo com os nossos salários — a menos que se disponha da grande fortuna de algum primo rico. Também para a maioria dos trabalhadores suíços tal viagem seria apenas um sonho, pois vivem, como se diz, da mão para a boca, e aqui talvez se trabalhe mais do que em qualquer outro lugar do mundo.
Por isso mesmo, o nosso nível de vida é bastante elevado — poder-se-ia dizer mais elevado do que a maioria dos suíços pode sustentar. Há, naturalmente, aqueles que ganham imensas fortunas, nem sempre honestamente. Mas a maioria, como já disse, tem de se restringir bastante.
Um operário comum ganha na cidade de 600 a 700 francos. Um operário especializado ganha de 800 a 900 francos; com sorte, de 1.000 a 1.500. Paga-se, pelo aluguel de uma casa antiga e desconfortável, entre 120 e 180 francos. Uma moderna custa de 200 a 480 francos.
1 kg de carne custa de 16 a 20 francos.
1 litro de leite, 0,60 franco.
1 kg de batata, 0,40 franco.
1 kg de açúcar, 0,90 franco.
Um automóvel médio custa de 6.000 a 8.000 francos.
Uma mobília de quarto, de 3.000 a 6.000 francos.
Uma casa de três quartos, com móveis, roupas de cama, tapetes e cozinha, de 12.000 a 30.000 francos.
Sobre a estrutura política, escreverei em outra carta, pois o meu tempo está muito apertado e quero que esta chegue ainda antes do Natal.
Envio-lhe, ademais, um artigo recortado de um jornal suíço sobre o que aqui se pensa e se conhece a respeito da nova capital do Brasil, Brasília. De maneira geral, é reconhecido mundialmente que a imprensa suíça é uma das mais bem informadas do mundo. Toda a política sul-americana inspira pouca confiança e não mostra sinal algum de melhoria.
Encerro aqui, e já aguardo ansiosamente a sua próxima carta.
Com lembranças a todos, inclusive ao tradutor[2], despedem-se
Otto, Maria Wermelinger e Walter[3]
Meinen herzlichsten Dank für Ihren Brief vom vergangenen Oktober. Ich habe mich sehr gefreut, von Ihnen zu hören. Da ich beabsichtigte, Ihnen eine vollständige Liste der Lebenshaltungskosten in der Schweiz zu senden, hat sich meine Antwort verzögert. Ich habe nun erfahren, dass ich eine solche bei der Abgeordnetenkammer in Bern[1] erhalten kann, doch wird dies noch einige Zeit in Anspruch nehmen.
Trotzdem schreibe ich Ihnen, um Ihnen und allen Ihren Angehörigen frohe Weihnachten und ein gutes neues Jahr zu wünschen.
Ich glaube, dass eine so weite Reise angesichts Ihrer Lage beinahe unmöglich ist, vor allem bei unseren Löhnen — es sei denn, man verfügte über das grosse Vermögen irgendeines reichen Vetters. Auch für die Mehrheit der Schweizer Arbeiter wäre eine solche Reise nur ein Traum, denn sie leben, wie man sagt, von der Hand in den Mund, und hier arbeitet man vielleicht mehr als irgendwo sonst auf der Welt.
Eben deshalb ist unser Lebensstandard recht hoch — man könnte sagen höher, als die Mehrheit der Schweizer sich leisten kann. Es gibt natürlich jene, die ungeheure Vermögen anhäufen, nicht immer auf ehrliche Weise. Doch die Mehrheit muss sich, wie gesagt, erheblich einschränken.
Ein gewöhnlicher Arbeiter verdient in der Stadt zwischen 600 und 700 Franken. Ein gelernter Arbeiter verdient 800 bis 900 Franken; mit Glück 1000 bis 1500. Für die Miete einer alten, unbequemen Wohnung zahlt man zwischen 120 und 180 Franken. Eine moderne kostet 200 bis 480 Franken.
1 kg Fleisch kostet 16 bis 20 Franken.
1 Liter Milch, 0,60 Franken.
1 kg Kartoffeln, 0,40 Franken.
1 kg Zucker, 0,90 Franken.
Ein mittleres Automobil kostet 6000 bis 8000 Franken.
Eine Schlafzimmereinrichtung, 3000 bis 6000 Franken.
Ein Haus mit drei Zimmern, mit Möbeln, Bettwäsche, Teppichen und Küche, 12 000 bis 30 000 Franken.
Über die politische Struktur werde ich Ihnen in einem anderen Brief schreiben, denn meine Zeit ist sehr knapp und ich möchte, dass dieser noch vor Weihnachten bei Ihnen eintrifft.
Ich sende Ihnen ausserdem einen aus einer Schweizer Zeitung ausgeschnittenen Artikel darüber, was man hier über die neue Hauptstadt Brasiliens, Brasília, denkt und weiss. Im Allgemeinen ist weltweit anerkannt, dass die Schweizer Presse zu den bestinformierten der Welt gehört. Die gesamte südamerikanische Politik flösst wenig Vertrauen ein und zeigt keinerlei Anzeichen einer Besserung.
Ich schliesse hier und erwarte schon mit Ungeduld Ihren nächsten Brief.
Mit Grüssen an alle, den Übersetzer eingeschlossen[2], verabschieden sich
Otto, Maria Wermelinger und Walter[3]
My deepest thanks for your letter of last October. I was very glad to receive news from you. As I intended to send you a complete list of the cost of living in Switzerland, my reply was delayed. I have now learned that I may obtain one from the Chamber of Deputies in Bern[1], but this will still take some time.
Even so, I write to wish you a Merry Christmas and a Happy New Year, to you and to all your relatives.
I believe that so distant a journey is almost impossible given your situation, above all with our wages — unless one commands the great fortune of some wealthy cousin. For most Swiss workers, too, such a journey would be no more than a dream, for they live, as the saying goes, from hand to mouth, and here one works perhaps harder than anywhere else in the world.
For that very reason our standard of living is quite high — one might even say higher than most Swiss can sustain. There are, of course, those who amass immense fortunes, not always honestly. But the majority, as I have said, must restrict themselves considerably.
An ordinary labourer in the city earns from 600 to 700 francs. A skilled worker earns from 800 to 900 francs; with luck, from 1,000 to 1,500. For the rent of an old and uncomfortable dwelling one pays between 120 and 180 francs. A modern one costs from 200 to 480 francs.
1 kg of meat costs from 16 to 20 francs.
1 litre of milk, 0.60 franc.
1 kg of potatoes, 0.40 franc.
1 kg of sugar, 0.90 franc.
A mid-range automobile costs from 6,000 to 8,000 francs.
A set of bedroom furniture, from 3,000 to 6,000 francs.
A three-room house, with furniture, bed linen, carpets and kitchen, from 12,000 to 30,000 francs.
As for the political structure, I shall write of it in another letter, for my time is very short and I want this one to reach you before Christmas.
I am sending you, besides, an article clipped from a Swiss newspaper on what is thought and known here about Brazil’s new capital, Brasília. It is generally acknowledged the world over that the Swiss press is among the best informed anywhere. All of South American politics inspires little confidence and shows no sign of improvement.
I close here, already awaiting your next letter with eagerness.
With remembrances to all, the translator included[2], we bid you farewell,
Otto, Maria Wermelinger and Walter[3]
Notas e fontes Anmerkungen und Quellen Notes and sources
- O remetente refere-se à “Câmara dos Deputados, em Berna”. O poder legislativo federal suíço é formalmente a Assembleia Federal, composta pelo Conselho Nacional e pelo Conselho dos Estados. A tradução preserva o termo empregado por Otto Wermelinger em 1962; a precisão institucional fica registrada aqui, em nota, sem alterar o corpo da carta. Der Absender spricht von der „Abgeordnetenkammer in Bern“. Die eidgenössische Legislative ist formell die Bundesversammlung, bestehend aus Nationalrat und Ständerat. Die Übersetzung bewahrt den von Otto Wermelinger 1962 verwendeten Begriff; die institutionelle Genauigkeit wird hier in der Anmerkung festgehalten, ohne den Brieftext zu verändern. The sender refers to the “Chamber of Deputies in Bern”. The Swiss federal legislature is formally the Federal Assembly, made up of the National Council and the Council of States. The translation preserves the term used by Otto Wermelinger in 1962; the institutional precision is recorded here, in a note, without altering the body of the letter.
- A carta encerra com lembranças “ao tradutor”. A menção é, ela própria, prova de proveniência: confirma que a versão portuguesa de 1962 passou pela mão de um tradutor, ao serviço da família destinatária no Brasil. A língua em que Otto Wermelinger redigiu o original — alemão ou francês — permanece em verificação pelo Arquivo Wermelinger. Der Brief schliesst mit Grüssen „an den Übersetzer“. Die Erwähnung ist selbst ein Herkunftsnachweis: Sie bestätigt, dass die portugiesische Fassung von 1962 durch die Hand eines Übersetzers ging, im Dienste der Empfängerfamilie in Brasilien. Die Sprache, in der Otto Wermelinger das Original verfasste — Deutsch oder Französisch —, wird vom Wermelinger-Archiv noch überprüft. The letter closes with regards “to the translator”. The mention is itself proof of provenance: it confirms that the 1962 Portuguese version passed through a translator’s hands, in the service of the recipient family in Brazil. The language in which Otto Wermelinger wrote the original — German or French — remains under verification by the Wermelinger Archive.
- Os signatários — Otto, sua esposa Maria e o filho Walter — correspondem, com forte probabilidade, a Otto Wermelinger-Ambühl, de Lucerna, e a seu filho Walter Wermelinger, funcionário da Swissair. Sete anos depois desta carta, em 1969, ambos convocariam e documentariam o encontro de mais de 300 Wermelinger no Mohren-Saal, em Willisau (ver, no Arquivo, o artigo “150 Jahre Wermelinger in Brasilien”, Willisauer Bote, 28 de novembro de 1969). Esta carta de dezembro de 1962 situa-se no mesmo ano em que teve início a correspondência genealógica documentada entre os Wermelinger do Brasil e da Suíça. Die Unterzeichnenden — Otto, seine Frau Maria und der Sohn Walter — entsprechen mit grosser Wahrscheinlichkeit Otto Wermelinger-Ambühl aus Luzern und seinem Sohn Walter Wermelinger, Swissair-Angestellter. Sieben Jahre nach diesem Brief, 1969, sollten beide das Treffen von über 300 Wermelinger im Mohren-Saal zu Willisau einberufen und dokumentieren (siehe im Archiv den Artikel „150 Jahre Wermelinger in Brasilien“, Willisauer Bote, 28. November 1969). Dieser Brief vom Dezember 1962 fällt in dasselbe Jahr, in dem die dokumentierte genealogische Korrespondenz zwischen den Wermelingern Brasiliens und der Schweiz begann. The signatories — Otto, his wife Maria, and their son Walter — correspond, with strong probability, to Otto Wermelinger-Ambühl of Lucerne and his son Walter Wermelinger, a Swissair employee. Seven years after this letter, in 1969, the two would convene and document the gathering of more than 300 Wermelinger in the Mohren-Saal at Willisau (see, in the Archive, the article “150 Jahre Wermelinger in Brasilien”, Willisauer Bote, 28 November 1969). This letter of December 1962 falls in the same year that the documented genealogical correspondence between the Wermelinger of Brazil and Switzerland began.
Fonte primária · Correspondência Suíça–Brasil
Arquivo Wermelinger, onde a história é verificada, não repetida Duas Barras, Rio de Janeiro · Mai 2026
Primärquelle · Korrespondenz Schweiz–Brasilien
Wermelinger-Archiv, wo Geschichte geprüft wird, nicht wiederholt Duas Barras, Rio de Janeiro · May 2026
Primary source · Switzerland–Brazil correspondence
Wermelinger Archive, where history is verified, not repeated
PT: tradução de época (1962) · DE e EN: traduções do Arquivo (2026) · Original em verificação PT: zeitgenössische Übersetzung (1962) · DE und EN: Übersetzungen des Archivs (2026) · Original in Überprüfung PT: contemporary translation (1962) · DE and EN: Archive translations (2026) · Original under verification
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Lucerna, Julho de 1962
Lucerna · Julho de 1962
Ao meu prezado amigo de além-mar,
Os meus sinceros agradecimentos pela sua prezada carta, vinda de tão longe. Fiquei agradavelmente surpreendido ao receber notícias suas. Infelizmente, só agora pude responder, pois estive doente por muitas semanas e precisei ir a um balneário para uma cura de repouso.
Também não é possível mandar traduzir esta carta para o português, pois essa língua não se fala na Suíça, apesar de ser um Estado europeu. Mais facilmente se encontraria um tradutor para o espanhol — mas traduções são também muito caras. Hoje, quando em seu país a indústria se encontra em franca prosperidade, importamos muitos trabalhadores espanhóis, que aqui ganham muito bem. Empregamos, porém, muito mais italianos, já que provêm de um país vizinho. Contam-se hoje na Suíça mais de meio milhão de trabalhadores estrangeiros, que aqui ganham o seu pão e enviam parcela considerável do rendimento para casa. Afluxo tão grande de trabalhadores jamais se registrou nos quase setecentos anos de existência da Suíça, e há poucos indícios de uma redução próxima. Há, naturalmente, o reverso da medalha: o aumento dos preços.
Digo isto apenas de passagem, mas é, naturalmente, de grande interesse. Constrói-se muito, o que oferece muitas oportunidades de trabalho. A indústria de máquinas e também a relojoaria exportam os seus produtos de qualidade para o mundo inteiro. E, então, o turismo: a Suíça é o país de férias do mundo inteiro.
Diante dessas realidades, pergunto-me se o senhor não cogita voltar à pátria ancestral. Há trabalho suficiente, tanto na indústria como na agricultura. Mas a autorização de entrada no país, para quem vem de além-mar, demora muito, e a mudança custa muito dinheiro. A isso se junta que as mulheres brasileiras não gostam de emigrar. Também seria preciso aprender outra língua: aqui na Suíça, sobretudo alemão e francês, e, em parte, também italiano. No ramo hoteleiro, o inglês é indispensável.
Não consegui adiantar a crônica da família. Quase não posso compreender como o senhor ignora de qual lugar procede o seu antepassado que emigrou primeiro. Isto seria a base para as pesquisas seguintes; sem isso, todo o esforço será inútil. Comprei-lhe especialmente um livro caro, onde estão fotografias dos lugares de onde procedem os Wermelinger ou onde alguns ainda residem. Falta nele, infelizmente, uma aldeia: Hergiswil, vilarejo de lavradores atrás de Willisau — sendo esta última, em contrapartida, fotografada diversas vezes no livro. Apostaria muito que o seu antepassado procede da região de Willisau ou Hergiswil, pois aí se encontrou, ou ainda se encontra, o maior número de Wermelinger. Naturalmente, Lucerna conta a maioria, pois todos emigraram do interior para esta cidade, em busca de melhores condições de trabalho.
Remeto-lhe, ademais, fotografias da Suíça, na esperança de que despertem grande interesse e alegria no círculo dos seus Wermelinger e amigos.
Quero também enviar-lhe fotografias da nossa família, pois os seus retratos muito nos alegraram, a mim e aos meus. Quando o senhor receber esta carta, meu filho Walter estará na escola de recrutas de Beijern, nas imediações de Freiburg — região de onde o senhor já mencionou alguma descendência.
Quanto aos outros nomes de família citados pelo senhor, nada mais sei sobre a sua descendência, pois não foi possível examinar além disso. Acredito, porém, que as suas pesquisas e suposições sejam quase certas, e o senhor poderá ler o texto no livro de Lucerna, onde descobrirá muitas indicações interessantes.
Achei muito interessante a sua referência às condições geográficas e demográficas do Brasil, tão vasto e tão pouco povoado. Nos jornais, lê-se muito sobre agitações nas cercanias do Rio. Espero que, nas suas montanhas, conheçam apenas sossego e paz.
Como este volume é pesado, não pude remetê-lo pelo correio aéreo. Demorará, assim, mais algumas semanas, mas teríamos interesse em saber se tudo chegou bem.
Eu e minha família receberemos novas notícias suas com muito prazer. Concluo aqui estas linhas, esperando que o encontrem com saúde. Minha família e eu o saudamos de todo o coração, desejando-lhe todo o bem.
Lucerna — Schweiz — Europa
Lucerne · Juillet 1962
À mon cher ami d'outre-mer,
Je vous adresse mes sincères remerciements pour votre précieuse lettre, venue de si loin. J'ai été agréablement surpris de recevoir de vos nouvelles. Malheureusement, je n'ai pu répondre que maintenant, car j'ai été malade plusieurs semaines durant et j'ai dû me rendre dans une station thermale pour une cure de repos.
Il n'est pas non plus possible de faire traduire cette lettre en portugais, car cette langue n'est pas parlée en Suisse, bien qu'elle soit un État européen. Il serait plus facile de trouver un traducteur pour l'espagnol — mais les traductions sont, elles aussi, très coûteuses. Aujourd'hui, alors que l'industrie de votre pays est en pleine prospérité, nous importons de nombreux travailleurs espagnols, qui gagnent ici très bien leur vie. Nous employons cependant bien plus d'Italiens, puisqu'ils viennent d'un pays voisin. On compte aujourd'hui en Suisse plus d'un demi-million de travailleurs étrangers, qui gagnent leur pain ici et envoient une part importante de leur revenu dans leur pays d'origine. Un tel afflux de main-d'œuvre n'a jamais eu lieu au cours des presque sept cents ans d'existence de la Suisse, et rien ne laisse présager une réduction prochaine. Il y a, naturellement, le revers de la médaille : la hausse des prix.
Je dis cela en passant, mais c'est, bien entendu, d'un grand intérêt. On construit beaucoup, ce qui offre de nombreuses possibilités d'emploi. L'industrie des machines, ainsi que l'horlogerie, exportent leurs produits de qualité dans le monde entier. Et puis, le tourisme : la Suisse est le pays de vacances du monde entier.
Face à ces réalités, je me demande si vous ne songez pas à revenir à la patrie ancestrale. Le travail ne manque pas, tant dans l'industrie que dans l'agriculture. Mais l'autorisation d'entrer dans le pays, pour qui vient d'outre-mer, prend beaucoup de temps, et le déménagement coûte cher. À cela s'ajoute que les femmes brésiliennes n'aiment pas émigrer. Il faudrait aussi apprendre une autre langue : ici en Suisse, surtout l'allemand et le français, et, en partie, l'italien. Dans l'hôtellerie, l'anglais est indispensable.
Je n'ai pas pu faire avancer la chronique de la famille. Je peine à comprendre comment vous pouvez ignorer le lieu d'où vient votre ancêtre qui a émigré le premier. Ce serait là la base des recherches ultérieures ; sans cela, tout effort sera vain. Je vous ai spécialement acheté un livre coûteux, contenant des photographies des localités d'où viennent les Wermelinger, ou dans lesquelles certains résident encore. Il y manque malheureusement un village : Hergiswil, village d'agriculteurs situé derrière Willisau — cette dernière étant, en revanche, photographiée à plusieurs reprises dans l'ouvrage. Je parierais fort que votre ancêtre vient de la région de Willisau ou de Hergiswil, car c'est là que se trouvait, ou que se trouve encore, le plus grand nombre de Wermelinger. Naturellement, Lucerne en compte la majorité, puisque tous ont émigré de l'intérieur vers cette ville à la recherche de meilleures conditions de travail.
Je vous envoie, en outre, des photographies de la Suisse, dans l'espoir qu'elles susciteront un grand intérêt et beaucoup de joie au sein du cercle de vos Wermelinger et de vos amis.
Je souhaite également vous faire parvenir des photographies de notre famille, car vos portraits nous ont, eux aussi, beaucoup réjouis, ma famille et moi. Lorsque vous recevrez cette lettre, mon fils Walter sera à l'école de recrues de Beijern, dans les environs de Fribourg — région dont vous avez déjà mentionné quelque descendance.
Quant aux autres noms de famille que vous avez cités, je n'en sais pas davantage sur leur filiation, car cela n'a pu faire l'objet d'un examen plus approfondi. Je crois toutefois que vos recherches et hypothèses sont presque certaines, et vous pourrez lire le texte dans le livre de Lucerne, où vous découvrirez de nombreuses indications intéressantes.
J'ai trouvé très intéressante votre remarque sur les conditions géographiques et démographiques du Brésil, si vaste et si peu peuplé. On lit beaucoup dans les journaux au sujet des troubles autour de Rio. J'espère que, dans vos montagnes, vous ne connaissez que tranquillité et paix.
Comme ce volume est lourd, je n'ai pu l'expédier par la poste aérienne. Il mettra donc quelques semaines de plus à vous parvenir, mais nous aimerions savoir si tout vous est bien arrivé.
Ma famille et moi recevrons de vos nouvelles avec grand plaisir. Je termine ici ces quelques lignes, en espérant qu'elles vous trouvent en bonne santé. Ma famille et moi vous saluons de tout cœur, en vous souhaitant tout le bien.
Lucerne — Schweiz — Europa
Nota arquivística. Esta carta é uma das primeiras peças da correspondência que reataria, após 143 anos de silêncio, o contato entre os Wermelinger do Brasil e os Wermelinger da Suíça. Otto Wermelinger-Ambühl, de Lucerna, e Walter Wermelinger da Costa, advogado em Niterói, mantiveram troca regular a partir de 1962. Sete anos depois, no encontro do Wermelinger-Tag em Willisau, em 16 de novembro de 1969, mais de 300 descendentes se reuniriam no salão Mohren para celebrar o restabelecimento desse vínculo — vendo, pela primeira vez, filmes do Brasil rodados pelo filho de Otto, Walter Wermelinger, então funcionário da Swissair. — Tiago Torres Wermelinger, 2026.
Original em francês · Otto Wermelinger-Ambühl · Lucerna, julho de 1962
Tradução portuguesa: Walter Wermelinger da Costa
Arquivo · Tiago Torres Wermelinger · Duas Barras · 2026